Marcelo Antônio da Cunha – No Olho da Rua

No olho da rua é um relato chocante, porém verdadeiro, dobre o descaso com os moradores de rua no Brasil. O autor nos traz a sua fascinante experiência como diretor da Fazenda Modelo, um dos maiores abrigos de mendigos do mundo. Antes de mais nada tenho que agradece a minha querida mãezinha, que indicou e emprestou o livro. Se existem alguém a quem em devo toda a minha gratidão pelo amor aos livros, este alguém é ela.

Para que vocês entendam, até alguns anos atrás a prefeitura do Rio de Janeiro não permitia que os cidadãos ficassem perambulando pelas ruas. Existia um ônibus, o “cata-tralha” ou “mendigão” que passava pela cidade todos os dias recolhendo os indigentes e arrebanhando-os em um só local: uma fazenda afastada dos olhares dos turistas e de todos que não gostavam da visão da miséria em suas calçadas e semáforos.

É muito triste ler sobre tanta degradação humana, Marcelo Antônio da Cunha nos mostra a todo o momento em quanto se assemelhavam as condições daquelas pessoas com os antigos escravos. Muitas vezes pessoas com família e casa eram levadas por engano e acabavam não saindo mais do abrigo.

Em detalhes a narrativa nos leva pelas histórias de cada uma daquelas pessoas. Gente como nós, gente que sofreu muito na vida, gente que foi abusada de todas as formas possíveis, acabando por se esquecer do que é ser gente.

Se você não gosta da realidade nua e crua e não quer se sentir como se tivesse levado uma bofetada na cara não leia. Isso porque não tem como não se sentir culpado depois de ler, pensando em como somos omissos com estes seres humanos, iguaizinhos a nós, que foram e continuarão sendo ignorados pela sociedade.

É claro que existem os “boa vida”, os que não querem trabalhar, e o autor fala muito sobre eles também. Mas o questionamento principal é como puderam deixar uma situação tão inumana quanto a da Fazenda Modelo ir tão longe.

A capacidade do autor de conviver e tentar saber mais sobre os homens e mulheres de rua também me espantou. Ao assumir o cargo de diretor ele se propôs, de verdade, a acabar com aquele lugar. O objetivo era que as pessoas, mesmo sem ter um teto, pudessem ao menos ter a única coisa que ainda lhes restava nesta vida tão pobre e singela: a liberdade.

Este foi um livro difícil de ler por todos estes aspectos, mas também muito tocante e elucidativo. Existiam tantas coisas sobre este mundo dos mendigos que eu nem imaginava e aprendi com esta obra. Acho que esta é a maior vitória que No Olho da Rua pode ter, levar para o resto da população um pouco que seja de conhecimento sobre estas pessoas que vivem apenas no anonimato.

Avaliação (de 1 a 5):

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